
2 de mar. de 2026
Palavra viva, poesia resiste aqui! Isso é Projeto Oriki!
Laíza Gama de Bulhões
Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)
RESUMO:
O Projeto Oríki surge em 2025, em Ilhéus (BA), como iniciativa criada por Lazila (Laíza Gama) e Lua Sofia, articulando slam, Hip Hop e formação cultural. Estruturado como projeto-guarda-chuva, tem como eixo a competição de poesia falada e desdobra-se em ações de visibilidade artística por meio do Ori lança, espaço dedicado a artistas independentes sul-baianos. Inspirado na tradição iorubá dos oríkìs, o projeto compreende a palavra como prática de memória e ancestralização. Ao sediar etapas regional e estadual do Slam Bahia, consolidou Ilhéus como encruzilhada poética no interior do estado. O Oríki atua no enfrentamento da invisibilidade cultural, promovendo circulação, reconhecimento e permanência da produção artística afro-diaspórica no sul da Bahia.
PALAVRAS-CHAVE:
Patrimônio, Feira, Ilhéus.
O Projeto Oríki nasce em 2025, em Ilhéus (BA), criado por Lazila (Laíza Gama) e Lua Sofia, como gesto de convocação. Não apenas um evento, não uma mera competição, mas uma tecnologia de palavra em território. Ilhéus é cidade moldada por heranças coloniais e por silenciamentos. Entre bustos, fachadas e cartões-postais, a juventude negra inventa suas próprias formas de permanência. O Oríki emerge nesse contexto como encruzilhada de vozes. Estruturado como projeto-guarda-chuva, articula slam, Hip Hop, formação cultural e visibilidade artística, afirmando a oralidade como prática de memória e como exercício de futuro.
O slam, modalidade de poesia falada surgida nos Estados Unidos na década de 1980, organiza-se por regras simples: textos autorais, tempo limitado, avaliação coletiva. No Brasil, transformou-se em arena pública de narrativas periféricas. Contudo, no Oríki, o slam não é apenas disputa. É rito contemporâneo de inscrição.
O nome do projeto remete ao oríkì, forma poética da tradição iorubá que nomeia para fazer existir. O oríkì não descreve; ele convoca. Ele chama a memória para o presente e reinscreve o sujeito na linhagem. Ao aproximar essa matriz da poesia falada, o projeto compreende cada performance como gesto de ancestralização. Como formula Leda Maria Martins (2003), o corpo negro, em contexto diaspórico, atua como arquivo vivo.
A competição de slam constitui seu eixo central, mas o projeto expande-se para outros campos do Hip Hop e das artes independentes. Dessa expansão nasce o Ori lança, espaço de visibilidade para artistas sul baianos que, muitas vezes, produzem à margem dos circuitos institucionais. Integrado às edições do slam, o Ori lança transforma o encontro poético em plataforma de experimentação.
Já passaram pelo projeto exposições do artista indígena JP Îasanã, e apresentações de artistas como Vitu Draws, Iran Brito, Nicalvan e Lua Sofia. Também artistas musicais, como Toag, Dudex, Viana, e Hi-Fai, que criam em quartos, salas improvisadas ou estúdios domésticos encontram ali palco e escuta. O que poderia permanecer restrito à intimidade da produção independente ganha corpo público.
As edições do Oríki também incorporam oficinas formativas que atravessam dança urbana, performance corporal, colagem artística e escrita criativa. Em algumas edições, oficinas pedagógicas realizadas em escolas públicas abordaram temas como afrofuturismo, Hip Hop e produção de poesia falada, ampliando o alcance do projeto para além do palco. Essas ações reafirmam o caráter formativo do Oríki: a palavra não apenas compete, ela ensina, provoca, reorganiza imaginários.
Em 2025, o Slam Oríki sediou a etapa regional e estadual do Slam Bahia, consolidando Ilhéus como encruzilhada poética do estado. A poeta Sued Hosaná representante do Slam Pé de Poeta (Salvador-Ba) consagrou-se campeã estadual nessa edição. No circuito regional promovido pelo projeto, o poeta Dg Mc sagrou-se campeão e representou o Slam Oríki na etapa estadual. Essas conquistas não são apenas títulos; são sinais de que a palavra produzida no sul da Bahia atravessa fronteiras internas e disputa centralidade.
O Projeto Oríki enfrenta a invisibilidade histórica que marca artistas sul baianos. Em um estado cujos circuitos culturais frequentemente se concentram na capital, o projeto cria rede própria de circulação, formação e reconhecimento. A palavra falada torna-se instrumento de permanência. O palco improvisado converte-se em território simbólico.
Ao articular competição, formação e visibilidade, o Oríki amplia o entendimento de patrimônio cultural imaterial. Não como peça fixada no passado, mas como prática viva que se reinventa a cada edição. A palavra segue reunindo existências.
A autora deste verbete é cofundadora do Projeto Oríki e participa diretamente de sua concepção, curadoria e execução, informação registrada em observância aos princípios de transparência autoral.
REFERÊNCIAS:
BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 515 p.
CAMPOS, João da Silva. Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. 1. ed. Ilhéus: Editus, 2006. 819 p.
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. Fórum Nacional do Patrimônio Cultural, v. 1, 2012.
SOUB, José Nazal Pacheco. Minha Ilhéus. Ilhéus: Litterarum, 2013. 268 p
