
25 de mar. de 2026
Memória, Cultura e Patrimônio: a feira livre na formação social de Ilhéus
Joel Victor Guimarães do Amparo
Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)
RESUMO:
A feira livre deve ser compreendida como Patrimônio Cultural Imaterial, configurando-se como um lugar de memória, pertencimento e sociabilidade, onde se manifestam saberes tradicionais, costumes e práticas culturais. Em Ilhéus, consolidou-se historicamente como espaço de socialização e de construção de identidades, articulando o abastecimento urbano às dinâmicas do porto e da economia cacaueira. Mesmo com as transformações urbanas que levaram ao desaparecimento da primeira feira instalada no Largo do Cais, suas práticas e significados permaneceram em outros espaços da cidade, como na Feira do Malhado. Nesse sentido, torna-se importante compreender a feira a partir dos sujeitos que a vivenciam cotidianamente, evidenciando seu papel na preservação da memória, da cultura e das identidades locais.
PALAVRAS-CHAVE:
Patrimônio, Feira, Ilhéus.
Patrimônio Cultural Imaterial enquadrado no Livro de Registro dos Lugares, por reunir práticas, saberes tradicionais e formas próprias de sociabilidade, a feira livre se aproxima do lugar de memória, pertencimento e afeto, características que justificam seu enquadramento. Dessa forma, constitui um espaço responsável pela produção e manutenção de sentidos culturais, onde se realizam práticas sociais e identitárias. Torna-se, assim, objeto de interesse de diversos campos, como a economia, arquitetura, geografia, agronomia, antropologia, sociologia e história, atraindo também artistas, agentes de turismo, fotógrafos e folcloristas. Essa diversidade de olhares evidencia as possibilidades presentes nesse espaço, onde se encontram costumes, hábitos, saberes, tradições e ofícios.
Ofícios, manifestações culturais e tradicionais encontram nas feiras populares o seu lugar de reprodução, espaço onde identidades e formas específicas de sociabilidade se revelam e se expressam. Em Ilhéus, se firmou como lugar de socialização, de permanente construção de identidades, exposição da sabedoria e criatividade popular. Nesse sentido, a feira livre constitui um espaço de preservação de memórias coletivas, onde práticas cotidianas e saberes tradicionais são transmitidos entre gerações, contribuindo para a continuidade cultural da comunidade.
A presença histórica da feira livre na cidade pode ser observada desde as primeiras décadas do século XX. “Em seguida instalou-se a primeira feira livre da cidade, no largo do cais” [1922] (Campos, 1981, p.376). Saveiros e embarcações traziam mercadorias, especialmente alimentos, utensílios e artesanatos dos distritos e cidades vizinhas para a região central, integrando o espaço urbano ao circuito rural e portuário. Inserida em uma cidade cuja economia estava estruturada pela exportação cacaueira, articulou o abastecimento às dinâmicas ligadas ao porto.
Além disso, a feira existia simultaneamente com outros espaços de forte representatividade social. “A feira coexistia com armazéns e edifícios de importante representatividade da sociedade como, Edifício da União Protetora dos Artistas e Operários de Ilhéus, Sindicato dos Estivadores e Bataclan”. (Soub, 2013). Esses espaços contribuíam para a agremiação de classes, formação de identidade, memória e história. A feira funcionava, assim, como um ponto de equilíbrio entre demandas cotidianas dos moradores e as din âmicas ligadas ao porto e às lavouras de cacau.
Infelizmente a primeira feira livre da cidade não existe mais, após inúmeras interferências para a modernização e urbanização, contudo, vale ressaltar a importância da preservação da memória e história desse espaço e a contribuição na formação da identidade e cultura em Ilhéus. A permanência histórica dessas práticas em outros espaços da cidade, como na central de abastecimento popularmente conhecida como “Feira do Malhado” contribuiu para que a feira não fosse reconhecida apenas como um espaço de comércio, mas como um importante patrimônio cultural vinculado à memória e à identidade social da cidade.
Apesar da antiguidade e valor que a feira livre tem na cidade de Ilhéus, é somente no ano de 2016 que elas são reconhecidas como patrimônio histórico cultural e imaterial. O então prefeito Jabes Ribeiro no seu terceiro mandato sancionou a Lei de N°3.782, de 08 de março de 2016 decretada pela câmara municipal. Em contraponto, oficializar o patrimônio cultural e datar com funcionamento de apenas dez anos é esquecer toda influência que a feira livre exerceu sobre a formação da cidade e sociedade no séc XX.
O patrimônio é antes de mais nada um fato social. A política de patrimônio cultural imaterial é reconhecer que o campo cultural está relacionado ao campo da totalidade da vida social. Falar, cuidar e decretar bens culturais materiais e imateriais, não é falar de coisas ou práticas em que tenhamos identificado significados essenciais, próprios das coisas, mas é falar de coisas, práticas, lugares são movimentados pelas sociedades, grupos sociais, comunidades que atribuem suas práticas, crenças, afetos e significados (Meneses, 2012).
O artigo 216 da Constituição Federal de 1988 aborda diretamente esse ponto: “Constituem patrimônio cultural e imaterial, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. Assim, “ o poder público até pode instituir o patrimônio, mas os patrimônios não são criados pelo poder público e sim pela sociedade, ele é antes de mais nada um fato social” (Meneses 2012).
Falar e cuidar de bens culturais não é apenas falar de coisas ou práticas que tenhamos identificado significados intrínsecos, próprios das coisas em si, mas é falar de coisas cujas propriedades derivadas de sua natureza material, escolhidos pela sociedade, grupos sociais, comunidades que utilizam para socializar, agir suas ideias, crenças, afetos, significados expectativas (Menezes, 2012).
É claro que o poder público pode e deve participar da criação desses patrimônios, ainda que privilegiando uns e marginalizando outros, mas sempre no jogo das práticas sociais. A atividade no campo do patrimônio cultural é complexa, exige criticidade, capacidade de ir além das inclinações pessoais.
A permanência histórica das feiras nas cidades também é observada por diferentes estudiosos. “Sob sua forma elementar, as feiras ainda hoje existem [...] Reconstituem-se nos locais habituais de nossas cidades, com suas desordens, sua afluência, seus pregões, seus odores violentos e o frescor de seus gêneros”.(Braudel, 2009) Claro que há feiras e feiras. Cada uma com sua particularidade local, apresentando o seu “sabor” local, o frescor dos gêneros exclusivos e a experiência particular em um lugar público.
A representação da barraca, as práticas comerciais, a valorização de determinados produtos, a familiaridade entre os feirantes e seus clientes, constituem memórias e histórias. É fácil constatar as utilidades da feira para o povo que dela se utiliza para preencher necessidades vitais, como fonte de alternativas diversas e solução das urgências da vida não atendidas pela organização formal da sociedade. “Todo patrimônio material tem uma dimensão imaterial de significado e valor, por sua vez todo patrimônio imaterial tem uma dimensão material que lhe permite realizar-se”(Meneses,2012)
Nesse sentido, a identificação dos valores dados aos bens patrimoniais é uma das dificuldades encontradas, pois os bens não demonstram seus significados em sua face material, sendo necessário entrar no campo social, é assim, que essa pesquisa em História busca compreender a Feira Livre da Dois de Julho, a partir dos feirantes, carregadores, fiscais, agentes. É preciso uma análise da realidade do ser no espaço, que existia na feira livre para a valoração enquanto um patrimônio cultural imaterial.
Assim, compreender a feira livre para além de sua função comercial significa reconhecê-la como espaço de memória, de produção cultural e de construção de identidades coletivas. As práticas, relações e saberes que ali se desenvolvem revelam modos de vida que ultrapassam a lógica econômica e se inserem no campo da experiência social. Desse modo, ao investigar a Feira Livre em Ilhéus a partir daqueles que a vivenciam cotidianamente, esta pesquisa busca evidenciar como esses sujeitos, por meio de suas práticas e narrativas, participam da construção e
da permanência desse patrimônio cultural, reafirmando sua importância na história e na memória social da cidade.
REFERÊNCIAS:
BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 515 p.
CAMPOS, João da Silva. Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. 1. ed. Ilhéus: Editus, 2006. 819 p.
MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. Fórum Nacional do Patrimônio Cultural, v. 1, 2012.
SOUB, José Nazal Pacheco. Minha Ilhéus. Ilhéus: Litterarum, 2013. 268 p
