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A Caminhada em Memória dos Mártires do Rio Cururupe

3 de mar. de 2026

A Caminhada em Memória dos Mártires do Rio Cururupe como patrimônio cultural imaterial de Ilhéus

Julia Mendes Mauricio dos Santos

Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC)

RESUMO:

Este trabalho analisa a Caminhada em Memória dos Mártires do Rio Cururupe como patrimônio cultural imaterial de Ilhéus. O texto questiona a ideia de que apenas prédios antigos ou tradições religiosas podem ser considerados patrimônio, discutindo por que manifestações ligadas à memória e à resistência indígena muitas vezes não recebem esse reconhecimento. Apresenta-se o massacre ocorrido no século XVI como marco da resistência Tupinambá e explica como a caminhada, realizada anualmente, mantém viva essa memória. Defende-se que a manifestação amplia a compreensão da história da cidade ao incluir a perspectiva indígena e contribui para valorizar a diversidade cultural de Ilhéus.

PALAVRAS-CHAVE:

Patrimônio, Feira, Ilhéus.

Em Ilhéus, as referências patrimoniais lembradas pela memória oficial estão associadas a edificações coloniais, tradições religiosas cristã-católica ou narrativas históricas centradas na colonização portuguesa e no ciclo econômico do cacau. Com isso, as manifestações culturais que não se enquadram nesses contextos, muitas vezes não são reconhecidas como parte do patrimônio local. A Caminhada em Memória dos Mártires do Rio Cururupe, realizada pelo povo Tupinambá de Olivença, é um exemplo.

A deslegitimação da caminhada sob o argumento de que ela não possui caráter religioso ou não integra a narrativa histórica dominante da cidade, evidencia uma concepção limitada de patrimônio cultural, baseada sobretudo em referências materiais ou em tradições legitimadas por narrativas oficiais. Dessa forma, esta reflexão parte do seguinte questionamento: por que determinadas manifestações são reconhecidas como patrimônios culturais enquanto outras, que vinculadas à memória e à resistência indígena, são deslegitimadas? 

No âmbito das políticas culturais brasileiras, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) ampliou significativamente a noção de patrimônio ao reconhecer a importância dos bens culturais de natureza imaterial. Segundo o órgão, “os bens culturais de natureza imaterial dizem respeito àquelas práticas e domínios da vida social que se manifestam em saberes, ofícios e modos de fazer; celebrações; formas de expressão cênicas, plásticas, musicais ou lúdicas; e nos lugares (como mercados, feiras e santuários que abrigam práticas culturais coletivas).” (IPHAN, s.d.). Essa definição tira o foco exclusivo dos monumentos e edificações históricas, passando a incluir também as experiências culturais vivas, transmitidas e recriadas no cotidiano social.

Ao longo do século XVI, os conflitos entre o povo Tupinambá e os colonizadores portugueses na região da antiga Capitania de Ilhéus cresceram diante da expansão territorial, da imposição do trabalho compulsório e da catequização forçada. Nesse contexto de violência colonial, por volta de 1559, o episódio conhecido como Massacre ou Batalha do Rio Cururupe, no qual diversos indígenas Tupinambá foram mortos em confronto com forças portuguesas, tornou-se símbolo da resistência indígena à invasão de seus territórios. Mesmo sendo deixado de lado das narrativas históricas oficiais da cidade, esse episódio permanece vivo na tradição oral e na memória coletiva do povo Tupinambá de Olivença.

Em memória desses acontecimentos, realiza-se anualmente a Caminhada em Memória dos Mártires do Rio Cururupe, organizada pelo povo Tupinambá de Olivença no território de Ilhéus. O percurso sai de Olivença em direção ao Cururupe e reúne lideranças, membros da comunidade e apoiadores em um ato coletivo marcado por falas públicas, cantos, rituais e momentos de reflexão. Mais do que uma simples homenagem às vítimas, a caminhada atualiza a memória do massacre no presente, reafirmando a permanência indígena na região e fortalecendo os laços simbólicos e políticos com o território ancestral. Ao ocupar um espaço historicamente marcado pelo conflito, a comunidade transforma o percurso em uma expressão concreta de memória, identidade e resistência.

Nesse sentido, a caminhada pode ser considerada patrimônio cultural imaterial de Ilhéus, pois é uma prática sociocultural viva que ajuda a preservar, transmitir e dar novos sentidos a acontecimentos importantes para a história da cidade. Ao lembrar o massacre do Cururupe, a manifestação amplia a compreensão da história local ao incluir a perspectiva indígena, costumeiramente e propositalmente deixada de lado nas narrativas oficiais. Assim, trata-se de um bem cultural que vai além de uma simples homenagem e passa a integrar as lutas por reconhecimento, contribuindo para valorizar as referências culturais de Ilhéus e para construir uma memória mais diversa sobre o passado do município.

Reconhecer a caminhada como patrimônio cultural imaterial pode ser uma forma de valorizar a diversidade das referências culturais de Ilhéus. A história da cidade não se resume só à colonização portuguesa ou aos ciclos econômicos que lhe deram destaque, ela também é marcada pelas vivências, resistências e permanência dos povos originários. Ao dar visibilidade a essa parte da memória local, a caminhada contribui para uma compreensão mais inclusiva da identidade do município e reforça o reconhecimento da diversidade cultural presente no território e, embora a prática já tenha forte legitimidade social e grande significado para o povo Tupinambá de Olivença, seu reconhecimento oficial como patrimônio cultural imaterial pode representar um avanço importante no processo de valorização pública dessa memória. Mais do que um procedimento formal, esse reconhecimento pode significar um compromisso das instituições com a preservação, valorização e divulgação de uma referência cultural que faz parte de forma essencial da história e da identidade de Ilhéus.

REFERÊNCIAS:

BRAUDEL, Fernand. Civilização material, economia e capitalismo: séculos XV-XVIII. São Paulo: Martins Fontes, 2005. 515 p.


CAMPOS, João da Silva. Crônica da Capitania de São Jorge dos Ilhéus. 1. ed. Ilhéus: Editus, 2006. 819 p.


MENESES, Ulpiano Toledo Bezerra de. O campo do patrimônio cultural: uma revisão de premissas. Fórum Nacional do Patrimônio Cultural, v. 1, 2012.


SOUB, José Nazal Pacheco. Minha Ilhéus. Ilhéus: Litterarum, 2013. 268 p

COMO CITAR O TEXTO:

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